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O núcleo da Terra parou e agora está a girar ao contrário. O que isso significa para o planeta?

A mais de 5.000 quilómetros de profundidade, envolto por uma camada de ferro líquido em permanente turbilhão, existe um lugar que nenhum ser humano alguma vez visitou nem conseguirá visitar: o núcleo interno da Terra, uma esfera sólida de ferro e níquel com dimensões comparáveis às da Lua. Durante décadas, os cientistas suspeitaram que esta estrutura girava de forma independente em relação à superfície do planeta. Agora, dois estudos publicados em 2024 e 2025 nas revistas Nature e Nature Geoscience confirmam algo que vai além dessa suspeita: o núcleo interno abrandou, chegou a parar e terá invertido o sentido de rotação.

O que os estudos revelaram
A história começa em 2023, quando Yi Yang e Xiaodong Song, investigadores da Universidade de Pequim, publicaram na Nature Geoscience a análise de décadas de dados sísmicos recolhidos desde a década de 1960. Os resultados apontavam para um padrão claro: o núcleo interno, que girava ligeiramente mais depressa do que a superfície terrestre, abrandou por volta de 2009 e deu sinais de inversão do movimento. Os autores propuseram que o fenómeno faz parte de um ciclo de aproximadamente 70 anos, com uma inversão semelhante registada na década de 1970.

Em julho de 2024, John Vidale, professor de Ciências da Terra na Universidade do Sul da Califórnia, e Wei Wang, investigador da Academia Chinesa de Ciências, publicaram na Nature um dos estudos mais abrangentes alguma vez realizados sobre o interior profundo do planeta. A equipa analisou 121 pares de terramotos repetitivos registados nas Ilhas Sandwich do Sul, no Atlântico Sul, entre 1991 e 2023. Estes eventos são particularmente valiosos porque ocorrem no mesmo local e produzem sinais sísmicos praticamente idênticos, permitindo identificar alterações nas camadas internas da Terra. As conclusões indicaram que o núcleo interno girou durante décadas mais depressa do que o resto do planeta, mas a partir de 2010 esse ritmo terá invertido.

Uma segunda descoberta ainda mais inesperada
Em fevereiro de 2025, o mesmo John Vidale liderou um novo estudo, publicado na Nature Geoscience, que foi além da rotação. Ao analisar 168 pares de terramotos registados entre 1991 e 2024, a equipa detetou diferenças subtis nas ondas sísmicas captadas por estações no Canadá e no Alasca. Se apenas a rotação do núcleo estivesse em causa, os registos deveriam ser semelhantes, mas não foram. A conclusão mais consistente é que a superfície do núcleo interno poderá estar a sofrer deformações físicas.

“O mais provável é que o núcleo externo esteja a empurrar o núcleo interno”, afirmou Vidale, sugerindo que alterações na interface entre as camadas profundas do planeta podem provocar mudanças estruturais. O investigador destacou ainda que o estudo revelou sinais de alterações na própria superfície do núcleo interno.

O que explica estas mudanças
O núcleo interno é rodeado pelo núcleo externo líquido, composto por ferro fundido em movimento constante, responsável pela geração do campo magnético terrestre. Várias forças atuam simultaneamente sobre o núcleo interno, incluindo:

  • O campo magnético gerado no núcleo externo

  • A atração gravitacional das regiões mais densas do manto terrestre

  • Diferenças de temperatura e densidade entre as camadas internas

Vidale atribui as variações à interação entre o movimento do ferro líquido e as forças gravitacionais do manto rochoso.

O debate sobre a periodicidade do fenómeno ainda não é consensual. Enquanto alguns investigadores defendem ciclos de cerca de 70 anos, outros sugerem períodos mais curtos, entre 20 e 30 anos. Estudos anteriores chegaram mesmo a propor ciclos de apenas seis anos, com base em dados históricos de testes sísmicos.

O núcleo pode não ser totalmente sólido
Em dezembro de 2025, uma equipa liderada por Youjun Zhang, da Universidade de Sichuan, publicou evidências que sugerem que o núcleo interno pode estar num estado superiônico da matéria. Nesta fase, alguns átomos mantêm-se organizados numa estrutura cristalina, enquanto outros se movem livremente, comportando-se como um fluido.

Para testar esta hipótese, os cientistas recriaram condições extremas de pressão e temperatura em laboratório, acelerando amostras de ligas metálicas a velocidades muito elevadas. Os resultados indicam que a natureza do núcleo interno pode ser mais complexa do que se pensava, reabrindo o debate científico sobre a sua composição e comportamento.

O que muda para a vida na superfície
Apesar da dimensão destas descobertas, os efeitos diretos para a vida quotidiana são praticamente impercetíveis. As alterações na rotação do núcleo interno podem influenciar ligeiramente a duração do dia, mas em escalas de milésimos de segundo. O campo magnético terrestre, essencial para proteger o planeta da radiação solar e para o funcionamento de tecnologias como GPS e comunicações por satélite, pode também ser indiretamente afetado por estes processos.

Os cientistas continuam a analisar dados sísmicos recolhidos em todo o mundo, na esperança de compreender melhor os mecanismos que regem o interior da Terra, uma das regiões mais inacessíveis do planeta, situada literalmente debaixo dos nossos pés.

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